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Tuesday, January 17, 2012

Por que é tão difícil ter vontade de voltar a viver no Brasil?

Adorei o post da Glenda, do Coisa Parecida. Não conhecia o blog dela até então.
Este post consegue enumerar muitas das razões pelas quais Capachinho e Piaçava não têm vontade de voltar a morar no Brasil.
Talvez seja difícil para o pessoal que ainda mora lá entender esses motivos, pois a gente só consegue ter uma visão panorâmica da situação se se afastar dela.
Aqui vai o post na íntegra.

Depois de duas semanas lendo sobre o porquê dos meus companheiros do Brasil com Z  não quererem mais voltar a viver no Brasil, decidi escrever meu texto. Em 2009 já havíamos feito uma ronda sobre “voltar ou não voltar” entre os colaboradores deste blog coletivo de expatriad@s que vivem nos mais diversos cantos do mundo… os tempos eram outros, o pessoal também, mas quem quiser conferir pode clicar aqui. Inclusive eu dei minha opinião sobre a volta e decidir escrever de novo não porque tenha mudado de ideia, mas sim porque ampliei um pouco meu pensamento.

Não vou enumerar aqui a quantidade de problemas, principalmente sociais, ambientais e econômicos que existem no Brasil, uma porque depois dessa série de posts não vale a pena repetir, outra, porque todo mundo está careca de saber que no nosso país falta segurança, falta educação e saúde pública, falta tolerância, falta tanta coisa e sobra outras mais, como desigualdades, exclusões, injustiças.

Não sei quando volto ao Brasil pelo simples fato de que não sei se quero voltar ao Brasil. Gosto muito da vida que levo na Espanha. A principal lição de vida que aprendi nestes 6 anos de Sevilha é que não é pobre o que menos tem, mas o que menos necessita. Aqui aprendi que não preciso de luxos para viver feliz, que com pouco dinheiro no bolso posso me divertir, ter uma vida cultural relativamente agitada e ainda viajar de vez em quando. Aprendi que a felicidade não se encontra em shopping e que autoestima não está diretamente relacionada com chapinha e unhas bem feitas. E não que no Brasil eu tivesse um padrão de vida alto ou fosse uma patricinha de carteirinha, mas depois de viver 6 anos em uma casa com móveis alugados, nossa percepção de vida muda muito.

Futilidades à parte, aqui aprendi que se trabalha para viver e não se vive para trabalhar. Isso significa realmente aproveitar a vida. A grande maioria do pessoal aqui do sul trabalha o justo e necessário para poder garantir um lazer a nível máximo, um happy hour no final do dia, uma escapada no final de semana e umas férias de verão de um mês. Horas extras, 60 horas de trabalho semanais, um final de semana em casa atolado de prazos esgotados? Não que isso não aconteça, mas é coisa rara. Conheço funcionários públicos que pedem redução de salário para poder ficar uma hora a mais com os filhos em casa.

Aprendi a deixar o carro na garagem (leia-se estacionado na rua) e usar o transporte público. Voltei a aprender a andar de bicicleta. De onde eu moro eu chego a qualquer parte da cidade em menos de 40 minutos de pedalada (e Sevilla não é uma cidade pequena, tem quase 800 mil habitantes fora a zona metropolitana). Não tem preço poder ir e vir respirando ar fresco (ok, nem sempre, afinal, estamos numa zona urbana) e de quebra fazer exercícios.
Aprendi a ser tolerante, a respeitar mais as diferenças, a descobrir a diversidade de raças, culturas, estilos de vida e pensamento muito diferentes dos nossos, brasileiros, muitas vezes machistas, egoístas e hipócritas (como também já foi citado nos posts dos meus colegas de Brasil com Z). Aprendi que viver no mesmo edifício que o motorista do caminhão de lixo e comer no mesmo restaurante da faxineira da piscina é uma coisa absolutamente normal. Aprendi a respeitar famílias com dois pais, duas mães e até duas mães e um pai, a não falar mal de uma mulher escabelada na padaria, a não ficar horrorizada com um «modelito» fora do «normal». Aprendi que o normal pode ser qualquer coisa, que cada pessoa é um mundo e que cada um de nós cuida do seu próprio mundo pessoal, sem precisar de aparências ou máscaras. E ao mesmo tempo aprendi que todos devemos cuidar do nosso mundo coletivo, que a força do ser em conjunto é muito importante e que, melhor de tudo, dá resultados.

Aprendi que as diferenças nem sempre geram integração, que podem causar desigualdades por estes lados também. Que imigrante é uma classe de pessoa que tem que correr atrás do prejuízo, que tem que lutar muito para conseguir se estabelecer e que, por questões que fogem as suas capacidades, nem sempre consegue o seu lugar ao sol. Aprendi que o ser humano, não importa a sua nacionalidade, está longe de ser perfeito, e apesar de tanta tolerância e igualdade por um lado, pode ser bastante preconceituoso e injusto por outro.

Então, quem em sã consciência depois de aprender tantas coisas e, acima de tudo, depois de viver tudo isso no seu cotidiano sente vontade de voltar a morar no Brasil? Quem, depois de aprender a cruzar uma rua pela faixa de segurança sem nem precisar olhar para os lados ou se acostumar a voltar para casa a pé às 3 da manhã, desfrutando do cheiro das flores de laranjeira e do silêncio da madrugada sem precisar olhar para trás, pensa um dia em regressar à sua pátria amada? Quem depois de dar risada (ou se irritar, no meu caso) com as crianças de uniforme do colégio jogando bola em plena praça central, de se habituar a pegar a sua bicicleta e fazer um piquenique no parque público ou de ver uma roda de velhinhos e velhinhas tomando cerveja (sem álcool) felizes e cheirosos no mesmo bar que a garotada de 20 anos pode cogitar a hipótese de não viver mais essas coisas, aparentemente tão banais, mas que no Brasil há muito tempo não existe?

Claro, nem tudo são rosas… Não sou casada com espanhol, não tenho meu diploma de arquiteta homologado para assinar projetos na Espanha (se bem que na atual situação econômica, «projetos» é coisa rara por aqui), vivo com um visto de estudante que não me dá direito à nacionalidade, não tenho direito à saúde pública (apenas atendimento de emergência) e pelo menos nos próximos anos não vejo nenhum futuro profissional na minha área (nem eu, nem 20% da população ativa do país, nem a maioria absoluta dos jovens recém-formados). Não tenho filhos espanhóis e em teoria, nada me prende aqui. Mais cedo ou mais tarde (cada vez mais é mais cedo, já que estou no segundo ano do doutorado) vou ter que tomar a fatídica decisão: volto ou não volto ao Brasil? Qualidade de vida ou um bom trabalho (ou um trabalho qualquer)?
Meu consolo é que este mundo é enorme, como já dizia o poeta, «grande demais para nascer e morrer no mesmo lugar». Confesso que não sei se tenho o mesmo ânimo para recomeçar tudo de novo em um país novo, mas quem disse que se eu voltasse ao Brasil eu não teria que recomeçar do zero? E entre recomeçar com qualidade de vida e recomeçar rodeada de violência, desigualdades e injustiças, só fico na dúvida porque neste último caso também estaria rodeada de muito amor, amigos e família (únicos motivos reais que me fazem pensar em voltar a viver no Brasil).

Enfim, todo mundo deveria ter a oportunidade de sair da sua bolha, ver o mundo com outros olhos, aprender novos valores e, quem sabe, voltar e conseguir lutar por um lugar melhor. O Brasil é um país com duas caras, lindo e horrível ao mesmo tempo. Sei que sou uma privilegiada por estar onde estou e que muita gente se tivesse condições já estava com as malas prontas e a passagem comprada para se mandar… e a gente aqui falando em voltar. Adoraria poder voltar e tentar fazer do meu Brasil um lugar melhor para se viver, mas ao mesmo tempo me sinto muito ingênua em pensar que isso poderia ser possível.
Queria viver entre os «meus», mas a cada dia que passa me sinto menos parte dos que ficaram. Já não penso em altos salários, altos cargos, muito dinheiro para ser feliz. Embora muita gente siga pensando ao contrário, dinheiro não é e nem nunca foi garantia de felicidade. Felicidade para mim é isso, poder levar a vida sem pausa, mas sem pressa, sem paradeiro se eu assim quiser. Posso não estar com os bolsos cheios, mas percebi que não necessito nada disso para ter uma vida confortável, alegre e divertida.

Tive que cruzar o oceano para perceber isso? Pode ser que sim, e continuo aproveitando esta grande oportunidade de fazer parte de outro mundo, que apesar de todos os seus problemas, consegue ser mais justo e respeitoso que o mundo onde nasci.

Tuesday, October 18, 2011

Estarão os blogueiros com seus dias contados?


Pois é, quase dois meses se passaram depois do meu último post em 31 de agosto. Falta de tempo não é desculpa desta vez; falta de inspiração e preguiça, talvez.

A escassez de posts não é "privilégio" só do meu blog. Há muito tempo tenho notado que as pessoas estão aos poucos deixando os blogs de lado, e que o tempo vivido no Canadá é inversamente proporcional ao número de posts.

Notei também que a maioria das pessoas cujos blogs acompanho (ou acompanhava) fazem parte dos meus amigos no Facebook, o que me faz questionar se o Facebook é em parte responsável pela morte daqueles blogs.

O primeiro ano pós-imigração costuma ser o mais intenso, já que tudo é novidade e a gente tem que correr atrás de um milhão de coisas, incluindo moradia e emprego.
No segundo ano, as pessoas já estão familizarizadas com muita coisa, já fizeram amizades, já têm seu supermercado, restaurante, ou canal de TV favorito. As novidades diminuem e os posts nos blogs começam a aparecer em intervalos maiores.

O terceiro ano é uma fase de assentamento em alguns aspectos, muitos já compraram sua casa própria, mas por outro lado estão lutando pela manutenção ou obtenção de um emprego melhor. Alguns meses acabam passando em branco até que um post apareça nos blogs.

No quarto ano, que é o meu caso, a rotina já faz mais que parte do dia-a-dia e as pequenas coisas deixam de ser novidade. Conseguir assunto para escrever no blog transforma-se em uma tarefa hercúlea, portanto, sem novidades, sem posts.

A ausência de posts se deve, em parte, justamente ao fato de estarmos acostumados às coisas e acharmos que nada é relevante o suficiente para virar um post. No comeco existe post para tudo: a primeira neve, o primeiro passeio de metrô, o primeiro Thanksgiving, etc.

Outro motivo, e é justamente sobre este que quero discutir, é o Facebook. Hoje passo mais tempo lendo o que amigos postam no Facebook do que lendo blogs. Além do mais, ler um post de 3 ou 4 linhas entre uma tarefa e outra é mais fácil e rápido de se fazer em um smartphone do que ler 50 linhas em um blog. Portanto, culpo sim o Facebook (e outras formas de rede social) pelo desaparecimento de posts em blogs.

Bom, essa é a opinião que tenho baseada na minha experiência. Sei de mais pessoas que passam pelo mesmo que eu e acabam dando mais atenção ao Facebook do que ao próprio blog. Mas e você? Você acha que o Facebook, Orkut, Google +, Linked In, e outras redes sociais estão colocando blogs em perigo? Estarão os blogs com seus dias contados?

Friday, March 25, 2011

Você tem saudade de quê?

Ser imigrante é ter o coração divido entre lá e cá. É abdicar de algumas coisas para ganhar muitas outras mais. É reaprender de uma forma diferente tudo o que já se sabe. Ser imigrante é também ter que lidar com a saudade e a falta de coisas e pessoas que nos são caras. Saudade nunca acaba, só fica diferente.
Muita gente não aguenta conviver com a saudade e a falta da zona de conforto que tinha em seu país, então decide voltar. E não tem nada de mal nisso não. Cada um tem que buscar ser feliz, aqui ou lá.

Acho que o período mais difícil são os primeiros 6 meses em um país diferente. Você não conhece ninguém, tudo é diferente e novo, o que tem seu lado bom e ruim. A saudade aperta tanto que até dói. Aí você arranja um emprego, faz novos amigos, começa a explorar a cidade e sua vida adquire novamente uma rotina que te ajuda a esquecer um pouco da saudade.

Quando cheguei aqui eu sentia mais falta da comidinha do Brasil do que da minha família, pois eu já vivia longe deles há muitos anos. Geralmente nos víamos uma ou duas vezes por ano e eu telefonava para minha mãe quase todo dia. Senti bastante falta desses telefonemas diários (ainda sinto), mas não ter aquela comidinha gostosa que me trazia boas lembranças era a parte mais difícil para mim.

Com o tempo fui conhecendo restaurantes e comidas de todas as partes do mundo. Meu paladar mudou, comecei a cozinhar (ou pelo menos tentar) e hoje já não sinto tanta falta da comida, além de coxinha, pão de queijo de padaria e outras guloseimas, mas a saudade da família e dos amigos tomou o primeiro lugar.

De vez em quando sinto saudade dos lugares que eu frequentava em São Paulo, de passar uma tarde inteira na livraria Cultura ou na Fnac, de tomar um cafezinho com leite na Kopenhagen ou no Franz Cafe, mas logo passa.
Tenho certeza de que se eu voltasse para o Brasil de vez também sentiria muita falta de várias coisas daqui, principalmente da qualidade de vida, para não falar na tranquilidade de andar nas ruas. Mas isso é uma coisa com a qual eu não preciso me preocupar porque não tenho intensão nenhuma de sair daqui. Aqui é meu lugar.

E você, tem saudade do quê?

Tuesday, February 15, 2011

Estatísticas da imigração para o Canadá em 2009

Muito se falou sobre a conspiração do Partido Conservador para diminuir a entrada de imigrantes no Canadá, mas parece que até agora eles não conseguiram fazer muita coisa.
Aqui estão alguns números interessantes sobre o último relatório do ano de 2009. Mais informações podem ser acessadas aqui no site do CIC. Vale lembrar que estes números me foram passados em um dos grupos de discussão sobre imigração dos quais participo.

- Apenas 26.000 imigrantes vieram da America do Sul: 500 deles com mais de 45 anos de idade. O Brasil exportou somente 2.480 pessoas (todas as categorias e idades). Apesar de pequeno, o número de novos imigrantes brasileiros tem aumentado ano a ano, saindo de cerca de 800 no ano 2000 e acelerando bastante nos últimos 4 anos. Em torno de 2 a 3 famílias de brasileiros chegam diariamente ao Canadá.

- A principal origem dos imigrantes ainda é a China, seguida por Filipinas e Índia. Em seguida, estão os Estados Unidos, Reino Unido e França. O Brasil ocupa a posição 23, atrás até do Egito, Emirados Árabes Unidos, Taiwan, e logo acima de Jamaica, Israel, Ucrânia e Vietnã.

- 60% dos imigrantes em 2009 eram de classe economica (skilled workers, entrepreneurs, investors), incluindo cônjuges e dependentes. Refugiados representam 9% dos imigrantes em 2009.

- Na categoria skilled worker, 26.300 homens e 14.400 mulheres foram aplicantes principais.

- Do total geral, 50.000 imigrantes tinham menos de 15 anos de idade.

- 42% dos imigrantes se estabeleceram em Ontario e, apesar de todo o esforço dos vizinhos francófonos, apenas 19% se estabelecu em Quebec. 16% foram para British Columbia. A GTA sozinha recebeu 32% do influxo, ou cerca de 82.000 pessoas - roughly, 225 pessoas por dia. Entre sul-americanos,
porém, Quebec consegue um resultado melhor: 9.000 imigraram para lá, 12.000 para Ontario.

- 67.000 imigrantes, ou 26% do total, não sabem falar Inglês ou Francês (crianças incluídas). 5.000 aplicantes principais da categoria skilled worker não sabem nenhuma das línguas oficiais. Como é então que conseguiram a pontuação necessária para o processo?

- Entre 1910 e 1913, o número de novos imigrantes superou a média de 300.000 (400.000 só em 1913). Percentualmente, isso significa que entre 1905 e 1914, mais ou menos, o número de imigrantes foi mais de 40% do número de residentes no início do período. Apesar de números absolutos semelhantes, hoje o Canadá "importa" menos de 1% de sua população por ano.

Saturday, November 27, 2010

Transporte para Brasileiros em Montreal

Este post vai para aqueles que precisam de transporte do aeroporto de Montreal para seu local de hospedagem. Os recém chegados podem contar agora com o serviço de transporte da Bea, que terá muita satisfação em atender brasileiros e não-brasileiros.

O valor cobrado, segundo ela, é o mesmo do mercado, ou seja, 50 dólares canadenses.
Para agendar seu pick-up ou para informações:

cafeaulaitnoquebec.blogspot.com
cafeaulaitnoquebec@gmail.com

Monday, November 15, 2010

Onde eu vim parar

Quando imigramos temos que abrir mão de uma série de coisas e nos adaptar ao novo estilo de vida do país escolhido, mas isso nem sempre é fácil para muita gente. Conheço histórias de pessoas que voltaram para o Brasil por motivos mais do que legítimos, e outras voltaram simplesmente por falta de preparo ou maturidade.

Por mais que pesquisemos e conversemos com que já está aqui a realidade é diferente para cada pessoa e nem sempre o que dá certo (ou errado) para um funcionará da mesma maneira para outro. Não existe nenhuma fórmula secreta para o sucesso, mas se você não for perseverante, paciente e flexível, as chances de alcançar seu objetivo serão bem pequenas; por isso, não faça comparações e não exija de você mais do que o necessário. Nesta palestra maravilhosa, Lionel Laroche, um engenheiro francês que veio para o Canadá tentar a sorte, nos dá uma lição de vida e nos mostra por que algumas pessoas são tão bem sucedidas e outras fracassam na experiência de imigração.

A Paula fez um post que merece ser lido. Ela também ouviu a palestra e compartilha da mesma opinião que eu: mesmo que você já seja um imigrante experiente vale a pena conferir o link pois sempre há o que aprender.